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Pátria Armada ‘Brazil’

Zé Renato é professor de Filosofia da UniJales

 

A histeria da campanha presidencial ainda está a ecoar nos corações e mentes, nos tecidos nervosos desse combalido país

É oportuno não nos esquecermos: a intolerância, o ódio, as ofensas, mentiras, bravatas, demagogias, deram o tom da campanha do “eleito”. Além dos discursos racistas, xenofóbicos, homofóbicos, machistas, com alta carga de fascismo, o incitamento à violência foi visível.

Gestos e teores belicistas marcaram a campanha do “coiso”. A violência, o ódio, credenciaram-se como solução imediata de problemas que se arrastam há séculos, cujas saídas estão muito além deles.

Emblemático: o então candidato usava os dedos para indicar o uso de armas. Violência já! Algo que nunca foi discutido: o preço do porte de armas. Quanto custa uma arma? Para um povo cuja renda (?) média é uma miséria, a aquisição de porte e de uma arma são uma excrescência

Além disso, vale notar, as seguidas denúncias e reclamações da falta de qualidade dos produtos em questão, oferecidos por uma empresa brasileira, cujas ações começaram a disparar na bolsa de valores. Armas que dispararam no coldre do policial. Fuzis que falharam no meio de uma troca de tiros com marginais. São alguns exemplos.

“ – A solução é abrir o mercado para o exterior”, dirão muitos. A entrada de mais empresas estrangeiras – nesse segmento em particular – não sucateará ainda mais nossa indústria? Não haverá mais desemprego? Não ocorrerá mais lucros indo para o exterior?

Armar a população é solução? Hipoteticamente: a maioria da população armada, num momento que nos encontramos, intolerância, incitamento ao ódio, apologia da violência, não é um perigoso combustível para ‘resolver’ problemas à bala?

Faroeste já!

Não se discute. Atira-se.

Quem morre? O desarmado.

Quem é o desarmado? O infeliz, pobre que não consegue adquirir uma.

É exagero pensar que ocorrerá uma explosão no mercado paralelo de armas?

Temos nós – brasileiros – essa cultura de posse e porte de armas?

 

Não somos dos Estados Unidos ou Canadá. Não a temos.

Detalhe: ainda que ambos os países tenham a mesma cultura – de posse e porte de armas – o cotidiano é bem diferente. Os canadenses gostam de armas, as têm em quantidade, todavia, possuem uma mentalidade tranquila, uma “cultura de paz”. Não há problemas. Ao contrário, nos Estados Unidos há uma paranoia, um inimigo permanente, uma cultura de ódio, potencializado pelo patético Trump.

São comuns e constantes as notícias de ações violentas, cujo resultado é sempre o mesmo: morte de inocentes, causadas por disparos de armas de fogo. Escolas, eventos públicos, boates, festas…há sempre um idiota armado, com ou sem justificativa, efetuando os disparos. Qual a razão? Fácil acesso à aquisição e porte de armas. Disponíveis em casa, nas mãos de crianças

Para aqueles que pensam que estou a exagerar, convido-os a assistirem aos documentários do cineasta norte-americano Michel Moore: “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 09/11”. Prestem atenção em sua argumentação.

Estamos mais próximos do Canadá ou dos Estados Unidos?

O filósofo Nietzsche argumentava que a moral cristã foi criada para tornar a vida em comunidade possível. Nivelando todos ‘por baixo’, alicerçados na dicotomia bem e mal, esse maniqueísmo geraria uma ‘moral de rebanho’, com a qual a vida conduzir-se-ia, com base na mediocridade e medo da condenação e busca da salvação.

Errou? NÃO!

Por quê? Vivemos mediocremente, à base de preconceitos, segregações, discriminações, falseamento de realidade, animosidades, ou seja, “na guerra de todos contra todos”, como diz o velho Hobbes. Diz ainda, citando uma máxima latina: “O homem é o lobo do homem”.

É plausível pensarmos na solução de nossos problemas com armas em punho? Mais um detalhe: a violência é inerente ao ser humano, ao homo sapiens, potencializá-la com um discurso de ódio e intolerância, ajuda ou atrapalha? Sairmos matando a todos, resolverá a violência, os roubos, furtos? Combaterá o crime organizado?

A inexistência de políticas públicas verdadeiras que garantam emprego, educação, saúde, lazer, cultura, acesso à tecnologia, consumo, enfim, a uma vida digna, salários e condições de trabalho justas, não parecem pertinentes para combater a violência?

Além disso, um povo com formação intelectual adequada é um povo com valores morais mais justos e firmes, com a prática da ética.

Outro detalhe: exemplos péssimos de impunidade, péssimo uso do dinheiro público, apropriação daquilo que é público, tratando-o como privado, não contam para formação do ‘caráter’ do brasileiro, do malfadado ‘jeitinho’, da lógica vagabunda do ‘se dar bem sempre’, mesmo em prejuízo da comunidade?

Até quando o “rouba, mas faz”?

Até quando o “é assim, vai fazer o que?”

As lições de Hannah Arendt, acerca da violência, do holocausto, da banalidade do mal, não foram suficientes para ensinar?

Precisamos continuar a insistir nos erros do passado?

Eric Hobsbawn sentenciou ao final da obra “Era dos Extremos”: “Se insistirmos nos erros do passado, havemos de fracassar”.

A história se repetirá?

A morte é irreversível, é inexorável. É a solução?

 

Zé Renato é professor de Filosofia da UniJales
[email protected]

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