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A relativização de crimes contra a humanidade

Professor "Cadu" é Biólogo, Cirurgião-Dentista, Mestre em Microbiologia, Doutor em Geologia Regional, Professor EBTT no Instituto Federal de São Paulo - Campus Votuporanga

 

Holocausto (genocídio de judeus na 2ª Guerra Mundial), escravidão no Brasil e tortura (em qualquer contexto ou circunstância) são considerados crimes praticados contra a humanidade que sempre devem ser lembrados para que não ocorram jamais.

No entanto, há pessoas ou movimentos que tentam relativizá-los ou até mesmo negá-los, em uma tentativa que reflete má fé ou ignorância

É o caso de um movimento conhecido como “Negacionismo do Holocausto” ou “Revisionismo do Holocausto”, como seus adeptos gostam de ser chamados, os quais negam o genocídio dos judeus na Segunda Grande Guerra ou, pelo menos, afirmam não ter ocorrido nas proporções historicamente reconhecidas.

Como alguém pode negar ou relativizar essa barbaridade?! Há estimativas que indicam que cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista. Quase 3 milhões pereceram em campos de concentração, sendo que mais de 1 milhão morreram somente em Auschwitz-Birkenau – o mais famoso deles, localizado na Polônia.

No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, tropas soviéticas descobriram Auschwitz-Birkenau, depararam-se com os horrores encontrados naquele local de morte e sofrimento, e libertaram os prisioneiros que, em sua maioria, eram judeus perseguidos pelos alemães nazistas. Anatoly Shapiro, então comandante daqueles soldados, assim relatou o fato: “Havia um cheiro tão forte que era impossível aturar por mais de cinco minutos. Meus soldados não conseguiam suportá-lo e me imploraram que fôssemos embora. Mas tínhamos uma missão a cumprir” (era o cheiro da morte, algo onipresente em Auschwitz).

Shapiro, em entrevista ao jornal New York Daily News, em 2005, um ano antes de sua morte, descreveu aquelas cenas horríveis: “Entramos ao amanhecer de 27 de janeiro (o ano era 1945). Vimos algumas pessoas de pé em roupas listradas – eles não pareciam humanos. Eram pele e osso, somente esqueletos”.

            Negar o holocausto é considerado crime na própria Alemanha (país responsável por essa atrocidade, na época do nazismo), que, de forma exemplar, empenha-se em não apagar essa triste lembrança de sua história com o objetivo de conscientizar as novas gerações a respeito dessa extrema crueldade

Quando publiquei um artigo em minha coluna no jornal, descrevendo os horrores da escravidão no Brasil, ouvi, de pessoas próximas, versões de que os africanos tinham escravos também, e que os vendiam aos portugueses, que, por sua vez, os traziam ao nosso país para comerciá-los (como se seres humanos fossem mercadorias ou bens semoventes, como gado, por exemplo). Também me deparei com observações de que a escravidão sempre existiu na história da humanidade, “tem até na Bíblia” – fui obrigado a ouvir essa pérola.

Diante dessas declarações, deixo as seguintes indagações: esses argumentos suavizam as dores lancinantes que os escravos sentiam ao tomar dezenas de chibatadas nas costas? Diminuem a humilhação de um escravo ao saber que sua mulher foi estuprada pelo dono da casa grande? Essa retórica cínica aplaca o sofrimento de um negro escravizado ao ver seu irmão morrer no tronco, de tanto apanhar, nos campos, de tanto trabalhar, ou em cima de um formigueiro, como forma de castigo? Essa falácia não apaga a mancha indelével que foi a escravidão no Brasil, uma das mais longevas da história da humanidade.

Outro caso lamentável é quando alguém, sem noção nenhuma de humanidade, diz: “Ele foi torturado, mas…” É bom frisar que, após a palavra “tortura”, não se pronuncia a conjunção “mas”. Tortura é tortura, não tem o poder de reparar nenhuma injustiça, não deve ser utilizada como instrumento de investigação, tem consequências seríssimas, não tem como relativizá-la, muito menos justificá-la, em hipótese alguma, em qualquer contexto, seja quem for a pessoa torturada. Oficialmente, nenhuma sociedade a reconhece legalmente, no entanto, sabemos que a tortura, tanto física quanto psicológica, continua a ser praticada, geralmente, de forma sigilosa.

            Para quem tem a insensatez de buscar justificativas para essa prática cruel e desumana, destaca-se que, no Brasil, a tortura é considerada crime inafiançável, de acordo com a Lei 9.455 de 1997, além de estar contemplada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Em outras palavras, quem a pratica é considerado criminoso

A pessoa que justifica ou relativiza genocídio, escravidão e tortura, além de fazer um julgamento injusto, não demonstra empatia pelo semelhante e não respeita a memória daqueles que já sofreram, e até perderam suas vidas, em decorrência dessas práticas desumanas.

 

Carlos Eduardo Maia de Oliveira é Biólogo, Cirurgião-Dentista, Mestre em Microbiologia, Doutor em Geologia Regional, Professor EBTT no Instituto Federal de São Paulo – Campus Votuporanga
edumaiaoli@yahoo.com.br

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