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Parasita, de Bong Joon Ho, e a necessidade de parasitarmos uns aos outros no capitalismo

Formado na UniJales, Gabriel Goes é professor de História na Prefeitura de General Salgado

Parasita – no original Gisaengchung – é um filme sul-coreano dirigido por Bong Joon Ho, lançado no Brasil em novembro de 2019, e vencedor, em fevereiro de 2020, do Oscar nas categorias de: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original e melhor filme internacional.

O longa metragem aborda a convivência de duas famílias, os Kim, vivendo numa constante e grave miséria, e os Park, com sua vida tranquila em meio ao luxo. A história de ambas as famílias se cruza quando Ki-Wook, filho dos Kim, entra no universo de relações da família Park, ministrando aulas de inglês

Para conseguir o cargo, já temos o primeiro exemplo de parasitismo: Ki-Woo falsifica documentos, que o elevam ao patamar de estudante universitário, contrastando com sua real ocupação, de dobrador de caixas de pizza.
Já dentro da casa dos Park, o agora professor, com a costumeira malícia de quem convive com a falta generalizada de tudo que precisa, encontra uma oportunidade de introduzir também sua irmã entre as paredes daquela mansão: enganando.
Ki-Jung, de simples dobradora de caixas de papelão, é elevada ao patamar de pedagoga e artista, por indicação de seu irmão – ou melhor, do seu “amigo” professor de língua inglesa.
Ambos estabelecidos na residência dos Park, cada qual com suas tarefas baseadas em vidas falsas, resolvem lutar pela entrada de seus pais nesse aparente paraíso. Fazem isso inventando maneiras de despedir o motorista e a governanta que lá estavam, para introduzir, respectivamente, Ki-Taek e Chung-Sook, seu pai e mãe, nos, agora vagos, empregos.
O filme não ilustra somente a dinâmica entre duas famílias essencialmente opostas, mas, simbolicamente, descreve o embate cotidiano entre as pessoas dentro do sistema econômico vigente.
Os conceitos de “bem” e “mal” deixam de existir para os Kim, pois em vários momentos os integrantes desta família voluntariamente executam atitudes ilegais ou imorais contra pessoas inocentes, com o objetivo de conquistar o básico, para, por exemplo, não morrer de fome.
No início, as ações orquestradas pelos quatro familiares não parecem pesar em suas consciências. Mas, habilmente, Bong Joon Hoo insere em seus personagens uma culpa crescente, que intriga a audiência, que comumente tomará partido dos pobres em oposição aos ricos.
O diretor é muito competente ao fazer com que as pessoas que assistam ao filme percebam que não há justiça nas ações iniciadas por Ki-Woo. Enganar e prejudicar pessoas não é, de maneira alguma, um ato nobre, mas se mostra, na realidade na qual vivem e partir de seus olhos, necessário.

Numa existência em que não sabem se terão o que comer no outro dia, ou se poderão dormir em paz durante uma chuva forte, não há espaço para que os Kim se integrem em lutas sociais revolucionárias, tampouco tempo para reivindicarem melhores condições sociais gerais. O que lhes sobra é a oportunidade de fazer o que for preciso para, assustadoramente, apenas sobreviver. O imediatismo característico de quem não tem luxos e vive imerso na pobreza é magnificamente colocado pelo diretor dentro da composição de cada um dos quatro parasitas

Nossos protagonistas não desejam tomar o lugar da família abastada, nem mesmo fazê-los sentir na pele como é não ter o mínimo. Buscam apenas conforto, sem refletir sobre ele.
O mérito de Parasita é a sutileza com a qual passa sua mensagem. Não encontramos diálogos tediosos sobre os antagonismos do sistema capitalista, nem críticas já batidas pelo uso excessivo.
O enquadramento do filme, muitas vezes, separa os Kim dos Park em níveis ou lados diferentes do mesmo cenário, por meio de linhas integradas pelo diretor na cena de modo a parecerem naturais, fazendo transmitir a ideia de divisão de maneira suave.
A compaixão dos Kim por aqueles aos quais fizeram mal durante sua veloz escalada social é rápida e curta, pois eles aprenderam a pensar em si mesmos, antes de pensar nos outros.
De fato, uma percepção egoísta, mas estimulada pelo capitalismo, que força os indivíduos a colocarem seus interesses acima do ambiente em que estão e da sociedade no qual vivem. Manifestar empatia ou praticar altruísmo neste cenário é altamente desencorajado.
Por isso, para não ser engolido por um sistema econômico imparcial, ser um parasita não é escolha, e sim uma necessidade.

Formado na UniJales, Gabriel Goes é professor de História na Prefeitura de General Salgado
gabrielgoes12@hotmail.com

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